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    Entendendo a dor

    "Qual ingrediente fez o bolo?": por que a dor raramente tem uma causa só

    Farinha, açúcar, fermento, forno. Nenhum deles faz o bolo sozinho, e todos precisam de uma forma. Sobre os ingredientes da dor e o lugar onde eles se juntam.

    30 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

    "Qual ingrediente fez o bolo?": por que a dor raramente tem uma causa só

    Este texto faz parte da série Analogias do consultório: imagens do dia a dia que ajudam a entender o corpo.

    "Afinal, o que causou a minha dor?" É uma das perguntas mais importantes que alguém pode fazer no consultório, e quase sempre ela vem com uma lista de suspeitos: a cadeira do escritório, o colchão, o estresse do último mês, aquele treino na academia.

    A pergunta é justa. A resposta, na maioria das vezes, é que nenhum desses suspeitos agiu sozinho. Para explicar, costumo falar de bolo.

    Foi a farinha que fez o bolo?

    Pense num bolo de chocolate. Foi a farinha que fez o bolo? Foi o açúcar? O chocolate? O fermento? A pergunta soa estranha, porque o bolo é justamente a mistura de todos eles.

    E não basta juntar os ingredientes na mesa. Eles precisam ser misturados e assados, no tempo e na temperatura certos. O bolo é o resultado de ingredientes mistruados, os quais são submetidos a um processo. E existem muitos bolos: cada um com sua receita, suas proporções, seu tempo de forno.

    Os ingredientes da dor

    Com a dor acontece algo parecido. A definição de dor da Associação Internacional para o Estudo da Dor registra que ela é sempre uma experiência pessoal, influenciada em graus variados por fatores biológicos, psicológicos e sociais¹. Na prática, os ingredientes podem ser muitos: horas sentado, pouco movimento, sono ruim, estresse, uma lesão antiga mal resolvida, o medo de se mexer (sobre esse último, escrevi em quando o medo aumenta a dor).

    Cada um pode estar presente e participar. Mas, sozinho, nenhum costuma fazer o bolo. Um exemplo: muita gente atribui a dor lombar ao tempo sentado no trabalho. Uma revisão sistemática que analisou essa relação concluiu que é improvável que ficar sentado no trabalho, por si só, cause dor lombar, e os autores observam que a dor lombar comum provavelmente tem múltiplas causas². Ficar sentado é um ingrediente. Ele não é a receita inteira.

    O processo também conta

    Duas pessoas passam oito horas por dia sentadas. Uma delas caminha, pedala ou treina com regularidade fora do trabalho; a outra passa o resto do dia parada. O ingrediente é o mesmo, o processo é diferente.

    A pesquisa aponta nessa direção: uma revisão de estudos que acompanharam milhares de pessoas ao longo do tempo encontrou que a atividade física no tempo livre pode reduzir o risco de dor lombar crônica em algo entre 11% e 16%³. É um efeito modesto, e os próprios autores pedem cautela na leitura, mas ele mostra que o modo como os ingredientes se combinam ao longo do tempo pesa no resultado. É a mesma lógica do acúmulo que conto em martelar de olhos fechados.

    Todo bolo precisa de uma forma

    Agora, repare numa coisa que todos os bolos têm em comum, seja qual for o sabor, a receita ou o tempo de forno: todos precisam de uma forma. Sem forma, os ingredientes não têm onde se juntar, e não há como levá-los ao forno. Sem forma, não existe bolo.

    No consultório, uso essa imagem para pensar a dor. Os ingredientes circulam pela vida de todo mundo, mas costumam se acumular em algum lugar específico do corpo: uma região que perdeu movimento, um segmento que o sistema nervoso passou a ler e comandar com menos precisão, uma área que vem absorvendo sobrecarga há tempos. Chamo esse lugar de forma da dor. É um jeito de organizar o raciocínio clínico, construído a partir da avaliação de cada pessoa.

    Procurar a forma

    Por isso, mais do que tentar descobrir qual ingrediente é o principal, a avaliação procura onde os ingredientes estão se acumulando. Quando o cuidado atua nessa região e ela recupera movimento, precisão e capacidade, os ingredientes passam a ter muito menos onde se juntar. Muitos deles continuam na vida da pessoa (o trabalho segue exigindo horas na cadeira, o estresse não some), mas o corpo consegue processá-los sem que virem bolo.

    Diminuir os ingredientes, quando possível, também ajuda: dormir melhor, se mexer mais, cuidar do estresse. As duas frentes andam juntas. E vale uma honestidade: a forma nem sempre é uma só, nem sempre é fácil de encontrar, e às vezes o próprio sistema de alarme do corpo está sensível demais. Por isso ela é tratada como hipótese, que se testa e se ajusta ao longo do cuidado.

    Há um jeito simples de perceber que a forma está sumindo: os mesmos ingredientes de antes deixam de produzir dor. Você continua passando o dia sentado, continua com a rotina puxada, e a lombar já não reclama como antes.

    A pergunta que ajuda

    Se você vive tentando descobrir qual foi o culpado da sua dor, talvez valha trocar a pergunta. Em vez de "qual ingrediente fez o bolo?", perguntar "onde esse bolo está sendo assado?". É por essa pergunta que começamos na avaliação.

    Referências

    1. Raja SN et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain. 2020;161(9):1976-1982. PMC
    2. Roffey DM, Wai EK, Bishop P, Kwon BK, Dagenais S. Causal assessment of occupational sitting and low back pain: results of a systematic review. Spine J. 2010;10(3):252-261. PubMed
    3. Shiri R, Falah-Hassani K. Does leisure time physical activity protect against low back pain? Systematic review and meta-analysis of 36 prospective cohort studies. Br J Sports Med. 2017;51(19):1410-1418. BJSM
    Marcos Reis, quiropraxista da QualiPraxis

    Escrito por

    Marcos Reis

    Quiropraxista da QualiPraxis, em Gramado e Caxias do Sul. Escreve a partir dos casos reais e das conversas do consultório. Conheça a trajetória do Marcos.

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