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    Entendendo a dor

    Martelar de olhos fechados: por que a dor às vezes parece surgir do nada

    Você sabe mais ou menos onde está o prego. O problema é o "mais ou menos". Sobre propriocepção, precisão do movimento e a dor que aparece depois de um mau jeito que você já deu centenas de vezes.

    13 de outubro de 2026 · 7 min de leitura

    Martelar de olhos fechados: por que a dor às vezes parece surgir do nada

    Tem uma frase que eu ouço quase toda semana no consultório: "Não fiz nada de diferente. Acho que dormi de mau jeito." Às vezes ela vem em outra versão: foi a viagem longa, o dia inteiro sentado, a caixa que levantei no sábado.

    Faz sentido pensar assim. A dor apareceu num dia específico, e é natural procurar naquele dia o que aconteceu de diferente. Só que, quando a gente conversa com atenção, quase sempre surge um detalhe curioso: aquela pessoa já dormiu daquele jeito centenas de noites. Já fez aquela viagem, já passou outros dias inteiros sentada, já levantou caixas parecidas. E nada doeu.

    Então por que, num certo dia, doeu?

    Martelar de olhos fechados

    Imagine pregar um prego de olhos fechados. Você sabe mais ou menos onde ele está. Sente o martelo na mão, tem uma ideia da distância e até acerta algumas vezes. Mas falta precisão. E o risco de acertar o próprio dedo é muito maior do que se você fizesse o mesmo trabalho de olhos abertos.

    O martelo é o mesmo. A força é a mesma. O que muda é a qualidade da informação que guia o movimento.

    Algo parecido acontece dentro do corpo. Só que, no lugar dos olhos, existe um mecanismo que quase ninguém conhece pelo nome: a propriocepção.

    O sentido que a gente usa sem perceber

    Músculos, articulações, ligamentos e pele têm sensores que informam o cérebro, o tempo todo, sobre posição, tensão e movimento. É por isso que você consegue levar o garfo à boca no escuro ou subir uma escada sem olhar para os pés.

    Traduzindo: propriocepção é a capacidade de o corpo saber onde cada parte está e o que cada parte está fazendo, sem precisar olhar.

    Com essa leitura, o cérebro organiza o comando: quanto cada músculo deve contrair, em que momento e por quanto tempo. Leitura e comando andam juntos. Quando a leitura de uma região fica imprecisa, o comando tende a ficar impreciso também. O cérebro pode mandar menos tensão do que o movimento pedia, ou mais do que a postura precisava para se sustentar com conforto.

    Na prática, o que a pessoa percebe pode ser uma rigidez que insiste em voltar, um lado que cansa antes do outro, a sensação de que a coluna está incômoda.

    O que se soma com o tempo

    Aqui vale um cuidado com a analogia. No corpo, o efeito é bem mais lento do que o do martelo no dedo. Um movimento um pouco impreciso, isolado, o organismo absorve com tranquilidade. Ele é inteligente e adaptativo: compensa, redistribui a carga, dá um jeito.

    A questão é o acumulado. Um ajuste fino que falha um pouco, todos os dias, ao longo de milhares de repetições, pode ir somando sobrecarga em tecidos que não estavam preparados para recebê-la. Enquanto essa soma cabe na capacidade de compensação, o corpo segue funcionando sem dor. Mas, num certo dia, ela pode deixar de caber. Daí os tecidos podem se irritar ou inflamar, e a dor aparece.

    Então entram a noite mal dormida, a viagem, a caixa pesada. Elas podem ter sido apenas a última de muitas marteladas. Por isso vale olhar além da véspera: o problema muitas vezes começa bem antes do dia em que a dor aparece.

    E a dor, nesse cenário, cumpre o papel de mensageira: avisa que a conta passou do limite. Já escrevi sobre uma ideia vizinha olhando para o pescoço, sobre como a origem da dor muitas vezes não está onde dói. Vale como companhia para este texto.

    Isso explica toda dor?

    Explica uma parte, e vale ser claro sobre os limites.

    Uma revisão sistemática mostrou que pessoas com dor lombar, em média, têm uma propriocepção lombar menos precisa do que pessoas sem dor, especialmente quando avaliadas sentadas¹. A maior parte dos estudos, porém, olha para um único momento, e o único estudo que acompanhou pessoas ao longo do tempo não encontrou essa relação. Ou seja: a ordem dos fatores ainda está em aberto. A propriocepção imprecisa pode contribuir para a dor, e a própria dor também pode atrapalhar a leitura que o cérebro faz da região. É provável que as duas coisas aconteçam, em proporções que mudam de pessoa para pessoa.

    Há ainda outros fatores no caminho: cansaço, estresse, condicionamento físico, carga de trabalho, lesões anteriores. A precisão do movimento é uma peça importante entre várias.

    Às vezes, o que faz a diferença é menos a intensidade do esforço e mais a precisão com que o corpo percebe e executa o movimento.

    Abrir os "olhos" do cérebro

    Se o problema é martelar de olhos fechados, a proposta é simples: abrir os olhos, em vez de cuidar do dedo machucado a cada martelada.

    É assim que eu penso parte do trabalho da quiropraxia neurofuncional. Não se trata de "colocar uma vértebra no lugar". Trata-se de melhorar a qualidade da informação que chega ao cérebro a partir de uma região que está sendo mal lida, para que o comando possa voltar a ser mais preciso.

    Existe uma linha de pesquisa que estuda como o ajuste vertebral quiroprático interage com o processamento sensório-motor, isto é, com a forma como o cérebro recebe e integra as informações do corpo². Os resultados são promissores, ainda que venham sobretudo de estudos neurofisiológicos, e o efeito depende da pessoa, da região e da técnica. Por isso, cada caso precisa ser avaliado e acompanhado com medidas que mostrem se a mudança está acontecendo.

    O ajuste funciona em parceria. Movimento orientado, exercícios de controle e equilíbrio, Pilates, a própria rotina: tudo isso também é informação para o cérebro. Na prática do consultório, o ajuste costuma abrir uma janela, e o movimento repetido com mais precisão tende a sustentar a mudança.

    Como saber se está funcionando?

    Esta é uma das perguntas que eu acho que todo paciente deveria fazer: como vou saber se estou realmente melhorando? A redução da dor é parte da resposta. A outra parte está nas medidas.

    Quando a hipótese envolve controle do movimento, faz sentido medir aquilo que se pretende melhorar: equilíbrio, coordenação, a precisão com que a pessoa reposiciona uma articulação, a simetria entre os lados, a resposta a provas que desafiam o sistema. Medir no início e reavaliar ao longo do caminho. Se a dor melhora e essas medidas também, a hipótese ganha força. Se as medidas ficam paradas, é hora de rever a rota.

    Antes do próximo dedo machucado

    Tratar a dor quando ela aparece é necessário, e aliviar o sofrimento vem primeiro. Controlar a dor é o ponto de partida. Mas se o martelo continua sendo usado de olhos fechados, o dedo tende a voltar a doer, talvez em outro lugar, talvez daqui a alguns meses, de novo "sem motivo".

    Se você convive com dores que vão e voltam, cada vez atribuídas a um mau jeito diferente, talvez valha olhar além do episódio de hoje e perguntar como o seu corpo está percebendo e organizando o movimento. É o tipo de coisa que a gente vai investigar na sua avaliação.


    Marcos Reis é quiropraxista da QualiPraxis, em Gramado e Caxias do Sul. Escreve a partir dos casos reais e das conversas do consultório.


    Referências

    1. Tong MH, Mousavi SJ, Kiers H, Ferreira P, Refshauge K, van Dieën J. Is there a relationship between lumbar proprioception and low back pain? A systematic review with meta-analysis. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. 2017;98(1):120-136. doi:10.1016/j.apmr.2016.05.016

    2. Haavik H, Murphy B. The role of spinal manipulation in addressing disordered sensorimotor integration and altered motor control. Journal of Electromyography and Kinesiology. 2012;22(5):768-776. PubMed

    Marcos Reis, quiropraxista da QualiPraxis

    Escrito por

    Marcos Reis

    Quiropraxista da QualiPraxis, em Gramado e Caxias do Sul. Escreve a partir dos casos reais e das conversas do consultório. Conheça a trajetória do Marcos.

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