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    Entendendo a dor

    Quando o medo aumenta a dor

    Muitas vezes, o que mais alimenta a dor não é o que acontece nos tecidos, mas a ameaça que o cérebro acredita estar enfrentando.

    30 de julho de 2026 · 7 min de leitura

    Quando o medo aumenta a dor

    Uma das coisas que mais me chamam a atenção no consultório é que muitas pessoas chegam assustadas antes mesmo de eu começar o exame. E percebo, quase sempre, que boa parte do que elas estão sentindo não veio só da dor. Veio do que imaginaram sobre ela.

    A cena costuma ser parecida. A pessoa acordou com uma dor forte nas costas, nunca sentiu nada igual, e a primeira pergunta apareceu sozinha:

    "Será que rompi alguma coisa?"

    Em poucos minutos, a mente tratou de preencher as lacunas.

    "É uma hérnia."

    "Vou precisar de cirurgia."

    "Nunca mais vou voltar ao normal."

    E aí, antes mesmo de descobrir o que realmente aconteceu, o corpo já começou a reagir. A respiração ficou mais curta, os músculos travaram, qualquer movimento passou a ser evitado. Para surpresa da própria pessoa, a dor pareceu aumentar.

    O que aconteceu ali não foi só a dor aparecer. Foi o medo aparecer junto.

    O desconhecido assusta mais do que a própria dor

    O medo tem uma característica curiosa: ele cresce na falta de informação. Quando não sabemos exatamente o que está acontecendo, o cérebro tende a preencher o vazio com os piores cenários possíveis.

    Isso pode ser útil em algum momento, pois diante de uma ameaça desconhecida, é mais seguro superestimar o perigo do que subestimá-lo. O problema é que uma dor sem explicação pode ser lida pelo cérebro como um sinal de grande ameaça, mesmo quando não há um dano importante por trás dela. O palpite automático (é uma hérnia, é um nervo comprimido) quase sempre aponta para o pior, e nem sempre é isso que está acontecendo, como já comentei ao falar sobre por que nem toda dor que irradia é um nervo comprimido.

    Quando o cérebro percebe perigo, o corpo inteiro muda

    O medo coloca o organismo em estado de alerta. Entre outras respostas, há aumento da atividade do sistema nervoso simpático, mudanças na respiração, mais tensão muscular e alterações na forma como o cérebro interpreta os sinais que chegam do corpo.

    Esse estado de alerta é essencial diante de um perigo real. Mas, quando se prolonga demais, ele também pode aumentar a sensibilização do sistema nervoso. É como aumentar o volume de um alarme: o ambiente não ficou mais perigoso, o sistema é que ficou mais sensível. E um sistema mais sensível tende a produzir uma dor mais intensa e mais persistente.

    Dor e nocicepção não são a mesma coisa

    Essa distinção parece sutil, mas muda bastante a forma de entender por que sentimos dor.

    A nocicepção é o conjunto de sinais que os tecidos enviam quando existe uma sobrecarga, uma lesão ou uma situação com risco de lesão. A dor é outra coisa: é a experiência que o organismo constrói a partir desses sinais, levando em conta muito mais do que apenas o tecido. Entram nessa conta experiências anteriores, emoções, contexto, expectativas, qualidade do sono, estresse e, claro, o medo.1

    Em outras palavras, a nocicepção leva informação ao cérebro. A dor é a leitura que o organismo faz de todas essas informações somadas. É por isso que dor e lesão nem sempre andam na mesma direção, e que um achado de imagem nem sempre explica o que a pessoa sente, algo que explorei em o que um laudo de ressonância mostra e o que ele não conta.

    O exemplo da injeção

    Pense numa aplicação de vacina. A agulha é praticamente a mesma, o local costuma ser o mesmo, o estímulo nos tecidos é muito parecido de uma pessoa para a outra. Existem, claro, pequenas diferenças de nocicepção entre as pessoas, mas elas são bem menores do que a grande variação que se observa na experiência da dor.

    Ainda assim, as reações são completamente diferentes.

    Algumas pessoas mal percebem a agulha.

    Outras sentem um incômodo pequeno.

    Há quem sinta bastante dor.

    E há quem fique tenso muito antes de a agulha tocar a pele.

    Alguns seguem conversando normalmente durante a aplicação. Outros prendem a respiração, contraem tudo e já se preparam para o pior. O estímulo físico é quase o mesmo. A experiência de dor, não.

    Isso acontece porque a dor não depende só do que ocorre nos tecidos. Ela também é moldada pelo significado que o cérebro dá àquela situação.

    Entender diminui a ameaça

    Se o medo nasce da incerteza, compreender o que está acontecendo costuma reduzir a sensação de ameaça.

    Quando a pessoa entende por que aquela dor apareceu, quais estruturas provavelmente estão envolvidas e qual é o caminho esperado para a recuperação, ela deixa de reagir a algo que não consegue enxergar. São, no fundo, as duas perguntas que guiam todo o cuidado que fazemos na clínica: qual é a hipótese para a causa da minha dor? e como vou saber se estou realmente melhorando? Quando essas duas perguntas começam a ser respondidas, algo muda. O cérebro deixa de trabalhar apenas com hipóteses assustadoras e passa a trabalhar com informação.

    O foco muda. Em vez de gastar energia imaginando o pior, a pessoa passa a direcioná-la para aquilo que dá para fazer de verdade. Isso não apaga a dor automaticamente, mas costuma reduzir um dos fatores que a alimentam: o medo.

    Compreender também é tratamento

    Na QualiPraxis, a gente acredita que um bom atendimento vai além de identificar estruturas doloridas ou fazer uma intervenção. Ele também passa por ajudar a pessoa a entender o que está acontecendo com o próprio corpo.

    Quando isso acontece, parte da incerteza desaparece. E, quando a incerteza diminui, o medo costuma diminuir junto. Isso ajuda o organismo a sair do estado permanente de vigilância e cria um ambiente mais favorável à recuperação. Não por acaso, ajudar a pessoa a entender a própria dor é uma das abordagens mais estudadas para reduzir o medo e a tendência de esperar sempre o pior.2

    Por isso, explicar não é só uma etapa da consulta. É parte do tratamento.

    Da ameaça para a compreensão

    Nem toda dor desaparece quando entendemos a causa. Mas compreender muda a forma como a pessoa se relaciona com ela: deixa de enxergar só um problema e passa a enxergar caminhos, recupera autonomia, recupera confiança para se movimentar, recupera a capacidade de participar do próprio tratamento.

    Porque, muitas vezes, o que mais alimenta a dor não é só o que acontece nos tecidos. É a ameaça que o cérebro acredita estar enfrentando.

    Talvez, no fim, o oposto do medo não seja a coragem. Talvez seja a compreensão.

    Compreender o que a dor está tentando comunicar não a faz desaparecer no mesmo instante, mas muda a forma como o organismo reage a ela: um cérebro que entende percebe menos ameaça do que um cérebro que apenas imagina, e a dor, muitas vezes, deixa de ocupar todo o espaço. Ela deixa de soar como um alarme contra um inimigo desconhecido e volta a ser o que sempre foi: um recado do corpo, apontando para onde vale a pena olhar.

    Se você está convivendo com uma dor que ainda não tem explicação, e boa parte do peso está justamente no não saber, dá para conversar com calma sobre o seu caso, sem pressa. Estou em Gramado e Caxias do Sul, e você pode falar comigo pelo WhatsApp quando quiser.

    1 Raja SN, et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain, 2020.
    2 Moseley GL, Butler DS. Fifteen Years of Explaining Pain: The Past, Present, and Future. Journal of Pain, 2015.

    Marcos Reis, quiropraxista da QualiPraxis

    Escrito por

    Marcos Reis

    Quiropraxista da QualiPraxis, em Gramado e Caxias do Sul. Escreve a partir dos casos reais e das conversas do consultório. Conheça a trajetória do Marcos.

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